terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Meu sorriso, teu sorriso - Parte I

Acordou logo cedo, jogou toda aquela bela cabeleira pra trás. Empurrou os olhos com força pra ver se conseguia ver o dia. Levantou-se. Era dia de encontrar seu médico. Seu? Que coisa mais possessiva não? Já se passava quatro anos que não o visitava, sabia que devia ter voltado, mas nunca se deu bem com médicos. Arrumou-se, desceu as escadas de sua casa, entrou no carro e partiu. Quando chegou ao seu médico, teve de esperar por 3 horas. Enquanto isso, pessoas entravam e saiam, voltavam, cochichavam, a observavam, apenas continuava olhando para a revista procurando algo que fosse mais produtivo, não tão desgastante, como ler aqueles livros imensos da faculdade. Quando o canalha apareceu com um sorriso amarelo e falso, dando a velha desculpa do transito dos infernos. Era a primeira paciente. Ouviu uma voz feminina, suave e calma, da secretária:
- Sr.ª Adelaide, por favor.
Levantou-se. Seguiu o corredor para entrar na sala. Olhava para as paredes havia quadros de crianças chorando, máscaras de circo, parecia assustador para um simples consultório médico. Entrou na sala, o médico sorriu com aquele jeito dengoso como quem quisera pedir desculpa pelo atraso. Adelaide não agüentou quando olhou pra aquele bigode todo branco, parecido com o do Gepeto, caiu na gargalhada. O médico ficou espantado, deve ter pensando que louca Adelaide era, mas mesmo assim, começou a consulta.
- Bom, a Sr.ª já devia ter me visitado a alguns anos atrás, não achas?! – disse o médico no tom irônico.
- Er... Sim Dr., mas sabe como é, trabalho, estudo. São tantas coisas. – Adelaide pensou “Não estou mentindo, ele disse que hoje estava um transito infernal.”
- Pelo que vejo a Sr.ª não anda muito bem da coluna, tão jovem, já está assim. Pobrezinha. – Ela odiava que tivessem dó dela, apenas continuou com seu rosto paralisado olhando fixamente para o médico. – Você vai ter que fazer alguns exames. Vejamos, sente dor em algum lugar mais especificado?
- Sim Dr., meu pescoço, alvo do stress, tenho muitas dores. – Disse Adelaide segurando o pescoço e com aquele olhar repuxado.
- Quero que você preencha essa ficha do convenio, cof cof. – Disse o Dr. colocando a mão a frente de seu charmoso bigode.
- O Sr. está doente?
- Não minha filha, sabe como é, já tenho 54 anos... A vida está passando, não ando muito bem de saúde.
- Se tem uma coisa que não entendo, como pode um médico não ficar bem de saúde? – Deu uma risadinha para alegrá-lo.
- Saúde é saber sorrir, igual você fez agora.
- Mas existem tantas pessoas com câncer e doenças tão sem volta, sorriem, mas não adianta em nada. – Adelaide ficou olhando pra ele atenciosamente, esperando uma resposta digna sobre a cura do sorriso.
- Você só aprende a sorrir de verdade quando consegue sorrir por dentro. Bom, são esses os seus exames Adelaide, preciso que você volte daqui três semanas.
- Mas... Sobre o sorriso? – Ela segurava-se a cadeira com medo de não poder ouvir aquela preciosa dica.
- Infelizmente não posso mais conversar com você minha querida. Pressuponho que na próxima consulta eu chegue mais cedo, e possamos conversar sobre tudo que quiser.
Adelaide entrou no carro, segurou firme o volante, respirou fundo. Sabia que mais um tormento de sua cabeça, estava apenas por estrear.

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