quinta-feira, 27 de agosto de 2009

E já não pude mais saber
Quem era eu, quem era você.
Simbolizei um amor presumível
Que me afligi viver.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

No Leito da Morte

No leito do hospital. Nunca esperei ter essa morte clichê. São exatas nove horas e vinte e sete minutos, estou sendo levada para o centro cirúrgico, querem levar mais um pedaço desse meu corpo. Câncer por minha culpa. As agências de modelo jamais aceitariam uma branquela pálida. Sem protetor no corpo. Sem protetor da morte.
Enquanto olhava para cima, buscava uma razão. Todos aqueles médicos me olhando, vendo-me como mais uma celebridade morta pelo narcisismo alheio.
Já não me olho no espelho há quase dois meses, essa mancha dominou meu belo rosto. Apenas revejo fitas e mais fitas das quais participei. Ah, como era bela…
Quando me dei conta o médico sacudia-me. Não toque em meus lindos braços! Olhei para os braços. Eram restos de pele e manchas. Não me pertencia mais àqueles membros enxutos de 40 e poucos anos atrás. A juventude não é eterna, muito menos a vida. O médico apenas dizia: Qual familiar irá acompanhá-la? Família? Isto nunca me pertenceu. Jamais pensei em ter filhos. Perder aquela cinturinha que me custou tantos dias de fome. Homens? Aos montes! Ricos de preferência. Mas agora nenhum deles quer uma velha imunda, como eu.
Neste corredor do hospital, alguns rostos velhos me reconhecem e se surpreendem. Consigo sentir o prazer daquelas velhas em me ver assim. Esta é minha quarta e, receio dizer, talvez última cirurgia. As manchas encobrem meu ser, assim como fiz com minha ganância.
Minha mãe morreu em um leito de hospital, mas não pude vê-la, muito menos ir ao enterro. Estava em um desfile Channel, aquele que você jamais perderia em sua vida.
Nunca pensei em como morrer. Agora que estou aqui com todos estes homens tentando encontrar esperança em algo concluído, penso em como morrer. Talvez suicídio, é belo, assim como eu. Talvez homicídio, é curioso. Mas talvez não morrer. A morte sempre me pareceu distante.
E hoje morro do jeito que nunca pensei: sozinha, feia, velha e no leito de um hospital.

Sofia Machado

sábado, 8 de agosto de 2009

Regressei

Não quero que me prenda mais!
Eu voltei, voltei! Meu Deus, por que voltei? Matar não me adiantou de nada. Continuo vivo na terra, sem me enxergarem, mas vivo novamente. Minh’alma vaga pelo mundo. Assim como meu coração vagou.
Agora tenho de suportar toda a dor que me consumiu. De que me adiantou o suicídio se ainda estou aqui? Poderia estar vivo e amar, amar, amar. Não posso mais amar. Acabei para todo o sempre real.
Presentemente, admito que amei alguém. A vejo, é para lá que vou quando não vago. Deixe-lhe, a quero de volta… Ao crepúsculo de cada tempo a vejo adormecer em rios de lágrimas. Afoga-se na dor, assim como me afoguei na morte. A quero de volta…

Hoje, apenas dou meu amor sem corpo, de alma.

Henri Amaral.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ingênuo, ligeiro.

Amável, verdadeiro.

E que não se torne mais um.

Que seja a epopéia do amor...

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"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Mário Quintana.

domingo, 2 de agosto de 2009

Ilegítimo da Vida

Fui teu bastardo. Ingênuo bastardo. Nasci do ódio, traição, desejo, paixão, sexo, momento. Quero que sinta-se culpado pelo resto de seus dias na terra e no inferno. Passei fome, mas não só de comida. Passei fome de amor. Passei dias sem comer e sem amor. Passei a vida sem existir. Passei. Acabei.
Acabei aqui na água. Quando era criança adorava ao mar, mesmo nunca pisando nele. As fotos dele me traziam alegria, parecia que vinha felicidade nas ondas e nelas iam embora a tristeza. As fotos do mar faziam-me feliz. Já você? Fez crescer horror dentro de mim.
Fui rejeitado pela vida. Rejeitado pelo ventre de minha própria mãe. Acabei em água. Pedi apenas que Deus me protegesse e parecia que era mudo para Deus, só afundei na água. Queria, ah como queria, ter tido amor.
Desgosto em viver foi o que tive. Nunca quis mulheres para a vida toda. Só tive momentos de paixão, assim como meu fruto. Transei com milhares de mulheres e me embebedei todas as noites. Fiz isso à procura da felicidade. Encontrei? Sim, claro. Felicidade em momentos. Não para a vida. Acabou em água.
Sai do meu corpo. O vejo lá afundando. Maldito corpo! Que me impregnou durante a vida. Não o quero mais. Deixo todo o sexo e prazeres inúteis da vida com ele. Levo comigo apenas o amor. O amor que nunca tive.

Henri Amaral

sábado, 1 de agosto de 2009

E depois dos 30? - Parte III

7:30 e já acordei pensando em alma gêmea. Fui para a redação, chegando lá “Google it” e apenas sites à procura da sua alma gêmea. Algumas acreditam que seja amor reencarnado, de outras vidas. Outras “o amor subsiste em outros planos e em outras vidas. É eterno”. Seria infinito durante a vida, e depois? Sinceramente, cansei de pensar nisso. O melhor que faço para essa mulher é fazê-la acreditar em sua própria fé. Foi assim então que respondi.
“Olá Solange,
Fiquei sem palavras ao ler. Alma gêmea é um encontro perfeito entre duas almas..."
Calma! Parei de escrever novamente. A alma gêmea é uma utopia do amor? Mas não sei se existe. Não tenho mais família na cidade e apenas colegas, isso seria suficiente? Ou alma gêmea engloba prazer? Não sei... Não sei. Apenas continuei respondendo àquela maldita mulher que me deixou ambígua.

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Lembro hoje dessa história e dou risada. Misto de passado e presente, mas já estou aqui no futuro. Hoje posso dizer que alma gêmea com algum parceiro não existe, assim como político completamente honesto.
Com meus 69 anos e diversas bolsas Gucci ao lado, sou feliz. Não que seja materialista, apenas foi assim que me realizei. Tive muitos homens durante a vida. As pessoas ao meu redor sempre me pressionaram pelos 30 anos e ser solteira. Aceitei ao casamento. Alguns duraram 15 anos ou 15 dias, mas foi eterno enquanto durou. E quanto a mim? Descobri que alma gêmea é consigo mesmo. O amor ao próprio.

Carolina Cancela.